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ESC 2026 · aula viva · Mi, Explica

A linguagem mudou. O raciocínio ficou mais clínico.

A nova diretriz de insuficiência cardíaca e a 5ª Definição Universal de Infarto não pedem apenas novos nomes. Elas reorganizam prevenção, diagnóstico e prioridade de conduta.

Ver o mapa das mudanças Escolher a profundidade
Dra. Milene Ávila, cardiologista
01IC

fenótipo · estágio · terapia

02CHOQUE

SCAI A–E

03IAM

primário · secundário · procedimento

Se você é paciente: comece pelos blocos em verde-claro e pelas caixas “em linguagem direta”.

Se você é estudante ou profissional: percorra as tabelas, critérios e notas de nuance clínica.

O mapa em 60 segundos

Seis mudanças que reorganizam a aula.

01

FE

HFmrEF sai; HFrEF passa a FE <50% e HFpEF a FE ≥50%.

02

Estágios

A–D contam a trajetória, do risco à insuficiência cardíaca avançada.

03

Linguagem

“IC aguda” dá lugar a “IC descompensada”: a piora também pode ser gradual.

04

Terapia

FMT, AMT e GDIT organizam medicamentos e intervenções por função clínica.

05

Choque

SCAI A–E descreve risco, pré-choque, choque clássico, deterioração e extremis.

06

Infarto

Tipos 1–5 saem; entram IAM primário, secundário e relacionado a procedimento.

A ideia que costura tudo

Classificar melhor não é decorar mais. É decidir mais cedo e explicar melhor por quê.

Parte 1 · insuficiência cardíaca

Dois fenótipos por FE. Quatro estágios de trajetória.

A fração de ejeção ajuda a escolher evidências, mas não resume etiologia, pressão de enchimento, congestão, função do ventrículo direito ou trajetória.

HFrEF · ICFErFE <50%

A faixa antes chamada de “levemente reduzida” passa a integrar a insuficiência cardíaca com FE reduzida.

HFpEF · ICFEpFE ≥50%

FE preservada não significa coração normal: o diagnóstico ainda exige a síndrome e evidência objetiva de alteração cardíaca.

Estágios A–D

A doença começa antes do primeiro edema.

A

Em risco

Há fatores de risco, mas não há sintomas ou sinais atuais/prévios, alteração cardíaca estrutural ou funcional, nem biomarcador cardíaco elevado.

Prevenir e tratar o risco antes do primeiro sintoma.
B

Pré-IC

Ainda não há sintomas ou sinais, mas já existe alteração estrutural, funcional ou biomarcador compatível com dano/estresse cardíaco.

Reconhecer cedo e impedir a progressão.
C

IC sintomática

Alteração estrutural e/ou funcional acompanhada de sintomas ou sinais atuais ou prévios de insuficiência cardíaca.

Aqui entram HFrEF <50% e HFpEF ≥50%.
D

IC avançada

Sintomas graves, disfunção importante e eventos recorrentes apesar de terapia médica e intervencionista otimizada.

Encaminhar cedo para avaliação avançada.

Não confunda: estágio A–D descreve progressão da doença; NYHA descreve limitação funcional. Um paciente do estágio C não “volta ao B” só porque ficou assintomático com tratamento.

Nova nomenclatura terapêutica

FMT, AMT e GDIT dizem qual é o papel de cada intervenção.

Não é uma fila rígida. Dispositivos e procedimentos podem ser avaliados em paralelo à otimização medicamentosa quando existe indicação.

FMT

Terapia médica fundamental

Base com recomendação Classe I e benefício em eventos para pacientes não selecionados daquele fenótipo.

AMT

Terapia médica adicional

Medicamentos para sintomas, qualidade de vida ou subgrupos específicos, conforme recomendação e fenótipo.

GDIT

Terapia intervencionista guiada por diretriz

Dispositivos e procedimentos recomendados, como CRT, CDI, suporte mecânico ou intervenções valvares em cenários selecionados.

Na IC sintomática, independentemente da FE

SGLT2i e MRA passam a ser recomendados como base comum. Na HFrEF, bloqueio do eixo renina–angiotensina e betabloqueador completam os quatro pilares.

IC descompensada

“Aguda” sai do nome porque a piora nem sempre é súbita.

A nova definição prioriza sinais ou sintomas graves o suficiente para exigir atenção urgente e início ou intensificação do tratamento — com ou sem internação.

01

Choque cardiogênico

Hipoperfusão por disfunção cardíaca primária. Requer reconhecimento, causa reversível e escalonamento rápido.

02

Edema agudo de pulmão

Instalação rápida, redistribuição de fluido e esforço respiratório. Vasodilatação pode liderar quando a pressão permite.

03

Predomínio esquerdo

Congestão pulmonar de instalação geralmente gradual; pode aparecer em todo o espectro de FE.

04

Predomínio direito

Pressões direitas elevadas, congestão sistêmica e risco de disfunção renal e hepática.

Nuance importante: quente/frio e seco/úmido continuam úteis para descrever perfusão e congestão. Eles não substituem a apresentação clínica, a causa precipitante nem a trajetória.

Procure a causa em paralelo

CHAMPIT

  • CCoronária aguda
  • HHipertensão emergencial
  • AArritmia
  • MMecânica aguda
  • PEmbolia pulmonar
  • IInfecção/inflamação
  • TTamponamento

Descongestão é verbo

Prescrever, medir, ajustar.

  1. 1

    Diurético de alça IV quando há sobrecarga, com dose orientada pelo uso prévio e pelo contexto renal.

  2. 2

    Reavaliar precocemente sintomas, exame, débito urinário e, quando útil, sódio urinário.

  3. 3

    Intensificar se necessário com maior dose ou bloqueio sequencial; acetazolamida IV ou hidroclorotiazida oral entram em pacientes selecionados.

  4. 4

    Confirmar descongestão sem provocar hipoperfusão; creatinina isolada não conta toda a história.

Choque cardiogênico · SCAI A–E

Choque é uma trajetória dinâmica, não uma fotografia da pressão.

O estágio deve ser revisto depois das intervenções. Deteriorar de C para D muda urgência, equipe e estratégia.

A

Em risco

Sem choque agora, mas com contexto capaz de evoluir.

B

Pré-choque

Instabilidade hemodinâmica sem evidência de hipoperfusão.

C

Clássico

Hipoperfusão que exige intervenção além da reposição volêmica.

D

Deteriorando

Falha em responder às primeiras intervenções.

E

Extremis

Choque refratário ou parada com múltiplas intervenções simultâneas.

Hipoperfusão não é sinônimo de hipotensão.

Lactato elevado, oligúria, alteração do sensório, extremidades frias e disfunção de órgãos compõem uma avaliação multiparamétrica. Nenhum marcador isolado substitui o quadro clínico.

Parte 2 · 5ª Definição Universal

Antes de classificar o infarto, prove que existe infarto.

A nova taxonomia é conjunta — ESC, ACC, AHA e WHF — e foi desenhada para acompanhar o caminho real do diagnóstico.

1

Isquemia

Oferta insuficiente para a demanda. Pode produzir sintomas, alteração elétrica ou imagem funcional sem necrose.

2

Lesão miocárdica

Troponina cardíaca acima do percentil 99 específico por sexo; aguda quando há elevação e/ou queda.

3

Infarto

Lesão miocárdica aguda acompanhada de evidência clínica, elétrica, anatômica ou por imagem de isquemia.

A frase para guardar: troponina elevada isoladamente é lesão miocárdica. Não fecha IAM primário — e pode nem ser infarto.

A nova classificação

Três cenários clínicos substituem os tipos 1–5.

P

IAM primário

Ocorre espontaneamente por uma patologia coronária aguda: aterotrombose, dissecção coronária espontânea, embolia ou vasoespasmo, entre outras.

Trombose de stent, reestenose e falha de enxerto após 30 dias também podem entrar aqui.
S

IAM secundário

Outra condição aguda provoca desequilíbrio entre oferta e demanda de oxigênio, com lesão miocárdica aguda e evidência objetiva de isquemia.

Taquiarritmia, hipotensão ou hipertensão podem ser gatilhos — mas o desequilíbrio isolado não basta.
R

IAM relacionado a procedimento

A isquemia e a lesão resultam de uma complicação de procedimento cardíaco percutâneo ou cirúrgico ocorrida em até 30 dias.

A categoria vai além de angioplastia e cirurgia de revascularização.

Como traduzir a classificação antiga

AntesAgoraA nuance que impede erro
Tipo 1IAM primárioA categoria nova é mais ampla: inclui toda patologia coronária aguda, não apenas aterotrombose.
Tipo 2IAM secundárioMantém o eixo oferta–demanda, agora com critérios mais objetivos para demonstrar isquemia.
Tipos 4 e 5IAM relacionado a procedimentoComplicação de qualquer procedimento cardíaco percutâneo ou cirúrgico em até 30 dias.
Tipo 3Primário, secundário, relacionado ou não especificadoO cenário clínico e a necropsia definem a categoria; se isso não for possível, usa-se “não especificado”.
01Há lesão aguda?

cTn acima do p99 específico por sexo + elevação/queda.

02Há isquemia?

Sintomas, ECG, imagem ou evidência coronária compatível.

03Qual é o cenário?

Primário, secundário ou relacionado a procedimento.

O que não desapareceu: STEMI/NSTEMI, reperfusão, estratificação de risco, Killip e os algoritmos de síndrome coronariana aguda continuam tendo suas funções. A nova classificação descreve a causa e o contexto do IAM.

Em linguagem direta

O que uma pessoa precisa entender?

Nem toda troponina alta significa “artéria entupida”. E insuficiência cardíaca não começa apenas quando aparece falta de ar ou inchaço. Descobrir o contexto certo muda tratamento, prevenção e acompanhamento.

Para a prova e para o plantão

O que o aluno precisa saber fazer?

Distinguir lesão de infarto, nomear o cenário causal, classificar estágio de IC e SCAI, reconhecer hipoperfusão mesmo sem hipotensão e ligar cada fenótipo à primeira prioridade clínica.

Mi, Explica

Profundo o suficiente para ensinar. Claro o suficiente para lembrar.

Este especial será conectado às próximas videoaulas do canal. Até lá, ele funciona como mapa de revisão e como ponto de partida para discutir casos.

Acompanhar no YouTube Consultório e agendamento

Referências primárias

As fontes que sustentam este especial.

  1. European Society of Cardiology. 2026 ESC Guidelines for the management of heart failure. Página oficial · DOI
  2. European Society of Cardiology. Official Slide Set — 2026 ESC Guidelines for the management of heart failure. Material educacional oficial
  3. ESC/ACC/AHA/WHF. Fifth Universal Definition of Myocardial Infarction (2026). Página oficial · DOI
  4. European Society of Cardiology. Fifth Universal Definition of Myocardial Infarction 2026: key changes. Resumo oficial

Conteúdo educativo, atualizado em 3 de setembro de 2026. Síntese para ensino e divulgação; não substitui a leitura integral das diretrizes, protocolos locais ou avaliação médica individualizada.